sexta-feira, 22 fevereiro 2019 09:18

Saída Pedagógica “Onde a terra acaba e o mar começa”

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Não “chove sobre a cidade pálida” e por detrás dos vidros do improvisado “Highland Brigade” sobre rodas, que não vem do Rio de Janeiro, nem traz Ricardo Reis, “os meninos espreitam a cidade” da luz mágica, “urbe rasa sobre colinas”. Lisboa, Lisbon, Lisbonne, Lissabon, “maneiras diferentes de enunciar”, mas destes passageiros chegados de Cinfães apenas um nome se ouviu.

Juntam-se os viajantes, divididos em três grupos (parece dedo simbólico de Fernando Pessoa), com o teatro Nacional D. Maria II como pano de fundo, de onde partirão no encalce do poeta. Guiados, os grupos percorrem as ruas, cafés, livrarias, escritórios e casas da Baixa da cidade, do Chiado ao Martinho da Arcada, que fizeram parte da vida do poeta de Orpheu e dos seus heterónimos.

Agora que Pessoa ficou no Martinho, escritório de fim de tarde, talvez em “flagrante delitro”, sobem os viajantes, novamente e em passo apressado, para o Chiado. Cruzam-se ainda com ele, que foi tantos, sentado na Brazileira, na companhia dos turistas e dos pombos. A pressa aperta e nem o “épico de outrora”, “bronze afidalgado e espadachim, espécie de D’Artagnan”, os retém rumo a outras e novas artes. Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, ali bem perto do “sino da minha aldeia”, que viu nascer o mais universal dos nossos poetas. Visita curta, horários de expediente assim impõem, que o dia é curto e o rio passa, Lídia!

Descem os viajantes, não pela rua do Alecrim, pois estes não vieram do Brasil nem fugiram de Espanha, em direção ao Tejo “ancestral e mudo”, que os recebeu com o Sol já a beijar o mar, numa celebração feliz do dia de S. Valentim. É quase noite quando o passeio, sem nenhuma pressa, se alonga na renovada Ribeira das Naus já havidas até ao Cais das Colunas, a “ver o rio e os barcos deste Tejo que não corre pela” nossa “aldeia, o Tejo que corre pela” nossa “aldeia chama-se Douro”.

O tempo está bom para filosofias e poesias, até para celebrar o catorze de fevereiro nas muitas línguas desta Babel de fotografias para o instagram, talvez até, para os Velhos do Restelo (já que não estamos longe!), com cartas de amor ridículas, se ainda se escrevessem cartas... mesmo ridículas!
Mas havia fome e pressa de chegar a essa babilónia da modernidade, caverna ruidosa e labiríntica, que não sabemos que Américas descobrirá.

A manhã acordou cedo, morna e ensonada. A casa da democracia também. Discute-se o fim das propinas no Ensino Superior. Os viajantes seguem a troca de argumentos entre os oradores, atentos ao seu futuro próximo. Abre parêntesis um especial agradecimento à Dr.ª Marisabel Moutela, deputada pelo círculo de Viseu, pela amabilidade com que recebeu os viajantes da sua província e pela disponibilidade para lhes mostrar os cantos da casa fecha parêntesis.

Foi em Lisboa que Ricardo Reis conheceu esta Lídia, a criada de hotel, não a das odes! Saramago não os levou a Mafra, mas bastou para levar os viajantes, na qualidade de personagem de destaque do espetáculo “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, ora como autor, ora como narrador, que teve lugar no megalómano edifício mandado construir com D. João V. Depois da ficção de Pessoa, da ficção de Saramago, a companhia de teatro Éter acrescentou ainda mais ficção... Confuso? Não! É só ler o romance do nosso Nobel!

Capítulo final: Cinfães... aqui, onde a serra abre as portas e o rio nos recebe.

Lido 331 vezes Modificado em sexta-feira, 22 fevereiro 2019 18:22