terça-feira, 22 junho 2021 22:44

Distopias de uma “Utopia” – Reflexões sobre a obra de Thomas Morus

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“Utopia”, da autoria de Thomas Morus (1478-1535), filósofo, homem de estado e de leis, diplomata, escritor, apresenta-nos uma sociedade ideal, com um modelo económico, social, religioso e de justiça perfeitos. Através da narração de Rafael Hitlodeu, marinheiro português, conhecemos os hábitos e costumes dos utopianos e a sua estrutura social, que contribuem para a atribuição do título de “verdadeira república” a esta ilha.

Sendo um livro escrito no século XVI, é natural que muitos aspetos essenciais (embora ainda controversos) da sociedade atual não estejam presentes e não sejam sequer pensáveis no quotidiano da época, como é o caso da igualdade de género. Contudo, e porque o ser humano, em si e na sua relação com a comunidade, está em constante mutação, nunca será possível conceber um sistema que se revele perfeito em todas as suas vertentes; não foi possível fazê-lo há cerca de 500 anos, não será possível fazê-lo atualmente nem nos séculos vindouros. Para isso, teríamos que assumir que a cultura, a política, a justiça, a economia e outros tantos fatores fossem definidos e praticados da mesma forma, independentemente da época. Ora, sabemos pela própria história que isso não se verifica: o conceito de cultura, por exemplo, tem variado imenso ao longo do tempo. O teatro, a música, as artes valorizam aspetos totalmente diferentes dos apreciados há cem anos, existindo, mesmo, determinados rituais que outrora eram considerados culturais e que são acerrimamente condenados e repudiados atualmente, como os autos de fé levados a cabo pela Inquisição durante cerca de trezentos anos e que, à época, constituíam verdadeiros momentos de convívio da população.

Para além disso, caracterizar uma sociedade como perfeita levanta inúmeras questões filosóficas: quais são os aspetos que, no seu todo, constituem condições necessárias e suficientes para a perfeição? O conceito de perfeição envolve a harmonia de instituições e o seu bom funcionamento ou a felicidade da população? A felicidade privilegia o ser individual ou a comunidade? Qual é o bem comum?

Apesar de reconhecer imensos mecanismos na sociedade utopiana que poderão, de facto, constituir verdadeiros prenúncios da possibilidade de existência de uma comunidade mais desenvolvida, capaz de proporcionar felicidade a todos os seus membros, focar-me-ei, nesta reflexão, em aspetos que considero menos favoráveis e até contraditórios em “Utopia”.

Em primeiro lugar, refere-se o papel do “sifogrante” (uma espécie de guardião, responsável por trinta famílias) e dos seus superiores, os “protofilarcas” (responsáveis por trezentas famílias) na sociedade, funcionando como uma espécie de governadores e adotando um papel paternalista com as famílias. Parece-me que, na realidade, os utopianos vivem mais reféns de um sistema patriarcal, que exige constante obediência e gratidão (ainda que não sejam obrigados a expressá-la oralmente) a estes chefes, do que propriamente numa sociedade livre. Aliás, a liberdade de que tanto se orgulham de ter é, na verdade, bem mais limitada. Ao ler as páginas que descrevem este sistema, percebi que a organização utopiana é, em muitos aspetos, análoga à ditadura que governa atualmente a Coreia do Norte, não só pela adoração aos “sifograntes” e “protofilarcas”, imposta aos utopianos, como também pelo facto de ser necessária autorização expressa por estes seres adorados para que as pessoas comuns possam deslocar-se até às províncias vizinhas.

Os próprios casamentos em “Utopia” são mais bizarros do que ideais, começando, desde logo, pela forma como os futuros cônjuges se conhecem: a mulher é apresentada ao seu futuro marido, estando ambos nus, a fim de conhecerem de antemão possíveis traços físicos que possam ser desagradáveis e que constituam um entrave para o futuro ambiente familiar. Sendo o amor verdadeiro, supõe-se que não seria uma simples característica física que nem sequer, à partida, é evidente, que faria com que o sentimento acabasse. No casamento em si, existem diversas situações que obrigam a mulher a dever obediência aos seus maridos, evidenciando-se o sistema patriarcal que já mencionei e a desigualdade de género.

Caso o matrimónio não corra da forma esperada, os utopianos têm a possibilidade de se divorciar; contudo, este ato só se consuma se resultar de um acordo entre ambas as partes. Deste modo, se apenas um dos cônjuges viver infeliz no casamento, terá que permanecer assim pelo resto da sua vida. Para além disso, mesmo que o divórcio ocorra, é sempre recriminado pela sociedade (o que não será muito diferente do que o que se passa atualmente).

Por fim, outro aspeto que pode ser condenado é o facto de os cidadãos serem ensinados, desde tenra idade, a não cultivar em demasia os laços afetivos. Consequentemente, os utopianos tornam-se em seres frios, distantes e desenraizados da família a que pertencem. Ao serem obrigados a pensar constantemente na felicidade da comunidade, encarando a sua de uma forma secundária, acabam por perder a humanidade, que é a característica que “Utopia” mais teme que assole os seus cidadãos e que, portanto, pretende evitar a todo o custo.

Apesar de todas estas objeções que me assomaram ao pensamento enquanto lia o livro, não descuro a sua importância para iniciar o debate sobre de que forma podemos criar uma sociedade que seja mais vantajosa para os cidadãos, num equilíbrio frágil e complexo que, embora inatingível, dele progressivamente nos possamos aproximar.

Marco Monteiro

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